Editorial

Cristiani Bereta da Silva

Resumo


Sabemos que as disciplinas escolares não podem construir-se e legitimar-se à margem de certas marcas e interesses sociais. Bem por isso leituras sobre a permanência ou a exclusão de determinadas disciplinas nos currículos escolares, em diferentes momentos históricos, precisam ser lidas dentro de um campo de disputas, de validação, de tensões (Chervel, 1990; Cuesta Fernández, 1997). Na atual conjuntura nacional, de grave crise política e econômica, a quem interessa a exclusão da disciplina História na relação de componentes curriculares obrigatórios para o Ensino Médio?

A falta de referência a essa área de conhecimento no texto da Reforma do Ensino Médio (Medida Provisória nº 746/16, aprovada pelo Congresso Nacional) ignora a relevância do lugar ocupado pelo ensino de História na Educação Básica, ou ainda, do lugar ocupado pela história na vida das pessoas. Na escola, o conhecimento histórico pode converter-se numa ferramenta poderosa para que os sujeitos se compreendam e compreendam o lugar que habitam no mundo, e que sejam capazes de lutar por um lugar e uma existência melhores. Mesmo se o ensino de História não conseguir se projetar com toda essa potência, em todas as salas de aula, mesmo assim certamente estamos mais bem situados com algum conhecimento da história do que sem nenhum conhecimento, como bem lembrou Peter Lee (2011, p.24-25).

A Revista História Hoje da Anpuh luta por um ensino de História consequente, capaz de contribuir para o enfrentamento das desigualdades sociais, dos preconceitos e discriminações diversos, capaz de fornecer alternativas para um futuro melhor. Bem por isso publicar os números da revista com regularidade, abrindo espaço para diferentes pesquisas com recortes temáticos e abordagens variados relacionados ao ensino de História, é uma forma de lutar pelo ensino de História nas escolas, em diferentes níveis. Neste número, além dos artigos de fluxo contínuo das diferentes seções, a Revista publica o Dossiê Música e Ensino de História, organizado pela Profa. Dra. Miriam Hermeto (UFMG) e pelo Prof. Dr. Olavo Pereira Soares (Unifal). O dossiê reúne artigos com diferentes perspectivas sobre o tema, explorando questões relacionadas à música como fonte de pesquisa na História e também como recurso didático e metodológico no trabalho em sala de aula. Os artigos desse Dossiê também problematizam questões como memória e identidade e, ao estabelecer relações entre música e cultura popular, abrem espaço para discussões sobre as relações étnico-raciais no país.

Oportuno, também, que ao articular música e ensino de História, o Dossiê não apenas contribui para divulgar pesquisas sobre o tema e para os debates sobre os usos da música em sala de aula, mas ainda nos lembra que em diferentes lugares e tempos a música foi/é usada como instrumento político, ferramenta de contestação, de resistência. Fica nosso desejo de que no atual contexto histórico nacional, o uso da música em sala de aula possa servir como mais um instrumento de luta pelo direito à História, na Educação Básica.

Cristiani Bereta da Silva

Editora

Florianópolis, outono de 2017.


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Referências


CHERVEL, André. A História das disciplinas escolares: reflexões sobre um campo de pesquisa. Teoria e Educação, Porto Alegre, v.2, p.177-229, 1990.

CUESTA FERNÁNDEZ, Raimundo. Sociogénesis de uma disciplina escolar: la Historia. Barcelona: Ediciones Pomares-Corredor, 1997.

LEE, Peter. Por que aprender História? Educar, Curitiba, v.42, n.4, p.19-42, 2011.




DOI: https://doi.org/10.20949/rhhj.v6i11.370

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